31/05/2010
A Psicopedagogia e a Epilepsia

"Ao estudarmos os  problemas neurológicos de nossos pacientes, objetivamos melhor
atendê-los dentro da  Escola Inclusiva"

Vamos imaginar uma orquestra em plena função. Inesperadamente, um grupo de violinistas acelera o ritmo da música. Quebra-se a harmonia geral da  Sinfonia, como um todo. Pois é o mesmo que ocorre com nosso cérebro, quando um grupo de células nervosas, os neurônios, sofre uma disfunção temporária que se manifesta por descargas elétricas excessivas, repercutindo por todo o corpo ou ao menos por parte dele, de forma abrupta, modificando temporariamente a consciência, a percepção,  a emoção e o comportamento motor da pessoa.

Essa alteração, do ritmo neuronal, cujos mecanismos bioquímicos e fisiológicos tornam-se imprecisos e que ocorre no cérebro de cerca de 3 % da população, especialmente durante a infância, recebe o nome de Epilepsia, de causas bastante variáveis, desde intercorrências durante a gestação, o parto e o pós parto, passando pelas doenças infecciosas, metabólicas, vasculares, degenerativas, hereditárias, além de traumatismo crânio encefálico que pode ocorrer durante um acidente por exemplo. As manifestações são também variadas, havendo desde as chamadas crises de ausência, até movimentos parciais e gerais do corpo.

As famílias das crianças em geral, ficam preocupadas quando ocorre uma primeira crise convulsiva, pois a idéia de morte vem logo  à mente dos pais, por saberem  pouco do assunto e como devem agir. Não se apavorar, cuidar para que a criança não se machuque, levá-la ao hospital e seguir as orientações do neurologista são indispensáveis.

Felizmente  uma média de 80% dos pacientes, apenas com tratamento neurológico  clínico apresentam remissão dos sintomas e há casos em que os médicos chegam a dispensar o tratamento. Mas por vezes, as crises mostram-se incontroláveis, até com o uso de vários medicamentos, o que exige a intervenção cirúrgica.

As crises epiléticas podem estar associadas a diferentes quadros e por isso, tratar de forma negligente uma crise,sempre representa um perigo com a saúde física e mental desse ser em desenvolvimento. Já em 1944 a associação entre epilepsia e autismo já se encontrava no estudo original de Leo Kanner quando, descreveu um de seus pacientes autistas como sofrendo de epilepsia.

Na escola, as convulsões constantes costumam estigmatizar a criança perante seus iguais, que muitas vezes passam a maltratá-la emocionalmente, dando-lhe apelidos, rejeitando-a, desrespeitando-a principalmente se os adultos não souberem como agir e como explicar aos coleguinhas o que acontece com o amigo epilético.

No caso de uma criança sofrer uma convulsão diante da classe,depois de cuidar para que não se machuque, colocando a sua cabeça e corpo em situação protegida, nunca tentando abrir-lhe a boca á força, ou procurar  levantá-la  no intuito de acordá-la, o passo seguinte é explicar o ocorrido, falar com a classe de modo calmo e mostrar que o colega logo voltará a si e poderá sentir vergonha se não for tratado com a devida consideração.

 Os problemas de socialização das crianças epiléticas são marcantes e muitas vezes, devido às alterações de comportamento ainda mais intensificadas pela medicação, tornam-se muito ansiosas por saberem da cronicidade de sua doença, por terem percepção do estigma social, dos cuidados excessivos que despertam nos familiares, etc

Importante lembrarmos que vários estudos apontam que, o tratamento moderno da criança com epilepsia ultrapassa o simples controle das crises epilépticas, devendo ser observadas as possibilidades de diagnóstico e tratamento das comorbidades como o retardo mental, os transtornos da linguagem, da aprendizagem e do TDAH, dos transtornos ansiosos e do humor, além de aspectos diagnósticos psiquiátricos que podem ser detectados em média de 40 a 50% dos epiléticos. Hoje já se sabe que as taxas de transtornos mentais em crianças e jovens epiléticos são maiores do que em crianças normais ou mesmo com outras doenças crônicas.

Crianças com epilepsia encontram-se em risco maior de fracasso escolar, devido às alterações de memória, atenção, linguagem, da velocidade de processamento da informação bem como a influência das drogas anti epiléticas. Apresentam uma incidência maior de dificuldades comportamentais, problemas com tempo de reação a estímulos e capacidade de aprendizagem e essas dificuldades já são perceptíveis nos primeiros estágios da doença. Mas em geral, essas crianças, quando tratadas, cursam normalmente ou com um pouco mais de apoio pedagógico, toda a vida acadêmica regular.

O crescente desenvolvimento da abordagem neuropsicológica, sobre o impacto da epilepsia na função cognitiva, vem sendo amplamente apoiado pelos médicos e estudado por equipes multiprofissionais em muitos lugares do mundo, assim como as pesquisas sobre novos medicamentos e intervenções cirúrgicas.  Conseqüentemente as oportunidades de diminuir eventuais prejuízos causados por déficits que prejudicam a aprendizagem e a possibilidade de conhecer o nível real da inteligência e do potencial de aprendizagem dessas crianças, tende a melhorar  muito, assim como a sua qualidade de vida. E a Psicopedagogia pode com certeza fazer parte dessa equipe !

Maria Irene Maluf

Especialista em Psicopedagogia e em Educação Especial
Editora da revista Psicopedagogia da ABPp
Professora convidada do curso de Psicopedagogia Institucional do
 Instituto Sedes Sapientiae
Coordenadora/SP do Curso de Especialização em
Neuropedagogia do Instituto Saber Cultura
Contatos:
E-mail: irenemaluf@uol.com.br

Fone:(11)3258-5715

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